Entrevista com Matheus Henrique Ferreira sobre o rastreamento do olhar de gêmeos

 

A graduanda Dominique Berthoux entrevistou o doutorando e membro do Painel Matheus Henrique Ferreira. Na entrevista, foram feitas perguntas sobre seu projeto de pesquisa de reconhecimento de expressões faciais em gêmeos e o dispositivo eye tracker. Confira a entrevista abaixo.

Dominique: Olá a todos! Meu nome é Dominique e sou uma bolsista responsável pelas redes sociais do Painel. Hoje vou entrevistar outro membro do Painel, o Matheus Henrique Ferreira. Você é doutorando, certo?

Matheus: Isso! Eu iniciei o doutorado em fevereiro de 2019.

Dominique: Conta para nós um pouco sobre você, porque você resolveu fazer psicologia e ingressar na carreira acadêmica.

M: Claro! Me formei como psicólogo em Pouso Alegre, Minas Gerais, e vim pra USP para fazer pós-graduação em psicologia experimental. Meu objetivo, a princípio, era estudar a percepção e cognição humana. Atualmente eu também participo da pesquisa com gêmeos que é conduzida pela Prof. Emma Otta.

D: Você sempre se interessou pela ciência?

M: Bom, na minha infância eu não tive muito contato com ciência de uma maneira formal… Eu fui uma criança bastante curiosa, tentei fazer viveiro de formiga, tentei criar lagartixa, lembro também que eu observava os pássaros para fazer desenhos e mostrar pro meu pai, porque acreditava que poderia haver algum padrão no voo deles. Mas nunca tive incentivo porque meus pais não são acadêmicos, então aos poucos eu fui perdendo um pouco do interesse pela coisa. Só fui voltar no ensino médio, quando eu comecei a ter maior contato com outros campos científicos. Foi então que eu descobri que tinha uma ciência que estudava o comportamento, a cognição, que é a Psicologia. Então, eu decidi seguir carreira nisso. Depois, ao fim da faculdade, eu fui me interessar pela pesquisa de processos cognitivos.

D: E como você se tornou membro do Painel?

M: Quando eu decidi estudar a cognição humana, entrei em contato com a pesquisa da Prof. Emma Otta. Ela estuda as diferenças entre os gêmeos monozigóticos (MZ) e dizigóticos (DZ); e viu no trabalho de rastreamento do olhar que eu estava realizando com a minha orientadora uma oportunidade para verificar se os gêmeos MZ e DZ também diferem em onde eles olham e nos movimentos oculares.

D: Como você consegue rastrear o movimento do olhar dos gêmeos?M: Nós utilizamos um equipamento que se chama eye tracker (“Rastreador de olhar”, em português). Ele é um sensor infravermelho que fica embaixo de uma tela de computador, e joga uma luz infravermelha nos olhos da pessoa. Pelo reflexo do infravermelho, ele consegue saber para onde os olhos da pessoa estão voltados.

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Imagem 1: Homem usando o eye tracker (fonte: Bitbrain)

Esse equipamento pode dar 2 tipos de informação para a gente: “para qual lugar da tela a pessoa está olhando?”; e “qual o movimento dos olhos que a pessoa está fazendo?”; se ela está com os olhos fixados em um ponto ou se ela está os movimentando. Nos nossos experimentos, a gente apresenta uma foto ou texto na tela de um computador; e o eye tracker nos diz para quais elementos da imagem a pessoa olha, por quanto tempo, e qual é a ordem.

D: No caso do seu estudo, qual tipo de imagem você mostra para os gêmeos?

M: Expressões faciais. Nós mostramos para eles rostos de pessoas com expressões de medo, raiva… são 5 emoções e a expressão de neutralidade.

D: Você pode dar um exemplo de como são os dados que o eye tracker coleta? Como eles se parecem?
M: Claro. Para dar um exemplo, podemos usar essa imagem que contém o rastreamento do olhar de quando uma pessoa está lendo um texto. Os círculos correspondem aos lugares onde a pessoa fixou o olhar, ou seja, ela manteve o olhar parado por um tempo ali. E os traços representam os movimentos que a pessoa fez entre os pontos de fixação.

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Imagem 2: Rastreamento do olhar de uma pessoa lendo um texto. Os círculos são fixações e as linhas são movimentos de sacada entre uma fixação e outra.

 

Quando a gente vê uma pessoa lendo um texto, a impressão é que ela está correndo suavemente os olhos pelo texto, mas o equipamento nos mostra que não é bem isso: o que ocorre são pequenas fixações e várias sacadas, e não é em toda palavra que você tem uma fixação. Isso mudou nossa concepção de como o ser humano observa as coisas.


D: Quais são os usos do eye tracker além da pesquisa científica?
M: Nós também temos a aplicação no mercado. Os estudantes da área de marketing (ou de uma área nova, o neuromarketing) utilizam o equipamento de eye tracking para verificar onde que a pessoa olha em um anúncio, por exemplo.

D: Qual foi a inspiração para sua pesquisa?

M: Ela veio de um estudo dos EUA que verificou o quanto o olhar dos gêmeos MZ era parecido. Baseado nessa pesquisa, a professora Emma e eu pensamos que “será que esse evento acontece também para as expressões faciais?”. Quando eu mostro um rosto de uma pessoa para os gêmeos, eles vão olhar para os mesmos elementos da face, no mesmo momento, e pela mesma quantidade de tempo? Será que vão ser iguais para todas as expressões faciais? Foi isso que levou à nossa pergunta experimental.

D: Você pode compartilhar seus resultados?

M: Claro. Vou mostrar aqui para vocês uma imagem animada da percepção de pessoas que não são relacionadas e como que elas observam a face. Como você pode ver, o caminho que os dois fazem é bem diferente, enquanto um está olhando para a região da boca, o outro está na região para os olhos, e não existe uma semelhança:

Imagem 3: Comparação entre o movimento dos olhos de duas pessoas (em amarelo e roxo) sem parentesco.

02 - par de pessoas sem parentesco.gif

Já no caso dos gêmeos DZ, que tem o mesmo grau de parentesco de irmãos comuns (cerca de 50% dos genes em comum), observamos maior semelhança. Eles tendem a olhar para as mesmas áreas da face, mas há algumas diferenças na ordem e na duração do olhar.

Imagem 4: Comparação entre o movimento dos olhos de gêmeos dizigóticos (em vermelho e roxo).

01 - dizigotico.gif

Por fim, observamos que os gêmeos MZ, com cerca de 100% de genes em comum, olham para os mesmos elementos da fotografia, e mais ou menos no mesmo momento. Então, nossa pesquisa sugere a existência um componente genético na forma como a gente observa faces.

Imagem 5: Comparação entre o movimento dos olhos de gêmeos monozigóticos (em azul e amarelo).

03 - monozigotico.gif

 

D: Entendi, é muito legal pensar como a percepção de expressões faciais afeta a interpretação e a convivência social das pessoas.

M: Com certeza, e talvez isso ajude a explicar por que algumas pessoas são melhores para observar expressões faciais do que outras. Isso pode ser tanto por uma questão de desenvolvimento como por uma questão genética (e é essa última que nosso estudo explora).

D: Então, a ideia é que o seu experimento com eye tracker, ou experimentos que usam esse equipamento no geral, no fim das contas estudam a percepção humana?

M: Exatamente. Nós temos várias formas de estudar a percepção, de aspectos cognitivos a fisiológicos. Por isso é importante a distinção das duas informações que o eye tracker nos dá. Quando a gente estuda o movimento dos olhos da pessoa, focamos bastante em aspectos fisiológicos. A gente avalia o que é uma fixação, o que é um movimento de sacada, o que seria o deslocamento dessa fixação. Mas também existe o componente cognitivo do eye tracker, que seria para onde a pessoa está olhando, que seria a motivação da pessoa para olhar aquela região da imagem. Com o eye tracker, podemos estudar uma parte fisiológica da visão e uma parte cognitiva, que está mais próxima da psicologia.

D: Foi muito legal conhecer mais sobre o seu estudo. Muito obrigada, Matheus! E obrigada a quem leu até aqui. Você pode saber mais sobre as pesquisas que estão sendo feitas no Painel na aba "Pesquisas" do site ou nas nossas redes sociais.